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terça-feira, 30 de maio de 2017

A Revolução dos Bichos e o Impeachment: Entre Porcos e Homens


Na fábula criada por George Orwell, “A Revolução dos Bichos”, os animais se organizam e fazem uma revolução que expulsa o domínio humano da granja onde vivem. Esta deixa de se chamar “Granja Solar” para se chamar “Granja dos Bichos”. No entanto, o levante que prometia uma vida melhor para os animais, não aconteceu, já que com o passar do tempo, os líderes da revolução, os porcos, tornaram-se tão corruptos e injustos quanto os homens. Neste momento histórico nada define melhor a situação do Brasil.

É sabido que o governo PT, embora tenha produzido melhorias socioeconômicas indiscutíveis, está longe de cumprir o que prometera, acima de tudo, por ter sucumbido à corrupção praticada pelos outros partidos ou como acontece no livro, se habituar rapidamente às práticas humanas. Dessa forma, o impeachment sofrido por Dilma, algo que expus que aconteceria faz tempo, não constitui nenhum golpe, haja vista as arbitrariedades e injustiças cometidas pelo partido.

Entretanto, o processo de impeachment, seja na sua esfera jurídica, seja na esfera social, não se configura como uma retaliação às ilicitudes do PT, e sim, à conjuntura econômica que se formou, abrindo espaço, portanto, para a perspectiva de um golpe político. Para esclarecer isso vamos a alguns fatos. Durante o governo Lula, também houve escândalos de corrupção, o mensalão estourou em plena campanha eleitoral, todavia, como a economia estava de vento em popa, não se escutou panelas sendo batidas, tampouco insatisfação e indignação com a corrupção. Afinal, quando a economia vai bem, tudo vai bem, não à toa regimes autoritários tiveram apoio popular, como a ditadura civil-militar no Brasil, o nazismo na Alemanha e o stalinismo na URSS.

Prosseguindo, após o afastamento de Dilma, o patriotismo indignado com a lama da corrupção também se esvaiu. O discurso, antes raivoso com Dilma, deu lugar a um discurso de paciência com o presidente Michel e seus aliados, como se estes estivessem alheios à sujeira do país (as manifestações contra o governo não se equiparam às feitas em prol do impeachment, embora existam muitos mais provas hoje de atos ilícitos cometidos pelos governistas que outrora). Sendo assim, o grande problema não se refere à corrupção e todos os males decorrentes dela, mas sim à crise econômica e nisso reside o maior problema do impeachment, pois quando se olha apenas para o fator econômico, os demais são desconsiderados, de tal maneira que, ainda que os porcos do PT mais do que o impeachment, mereçam responder dentro da justiça por tudo que fizeram, isto é, por todas as mortes que poderiam ter sido evitadas, por todas as crianças sem educação que entraram na criminalidade, por todo pai de família que não tem como pôr o pão na mesa e enxergando o desespero nos olhos dos filhos tem que abraçá-los e dizer que ficará tudo bem; devemos reconhecer que os demais partidos também são co-autores de todos esses crimes e que, do mesmo modo que o PT, também devem pagar por isso.

No entanto, como disse, quando apenas o aspecto econômico é analisado, todo o resto se explode e perde valor, de maneira que até esquecemos que antes dos porcos, éramos explorados e massacrados pelos homens, que a corrupção não foi inventada pelo PT, ela sempre esteve presente na nossa sociedade favorecendo os poderosos e mantendo o povo excluído, e que não há benefício algum em substituir os senhores, porque, ainda que aparentem ser diferentes, todos carregam chicotes nas mãos.


No fim da história de Orwell, os animais constatam que já não havia diferença entre os porcos e os homens, haviam se tornado um só. Porcos não eram melhores que homens, estes não eram melhores que porcos. Eram iguais. Neste exato momento esquecemos completamente esse detalhe: porcos e homens são iguais. E, assim, pautas como a reforma política já saíram de cena faz tempo, dando lugar a um maniqueísmo de pessoas que insistem em defender os porcos, enquanto outros estão sedentos para devolver o comando aos homens. Desse modo, pouco importa o impeachment (ou um novo impeachment ou eleições diretas) ou quem assumirá o poder, porque enquanto nos contentarmos com migalhas, sempre haverá motivos para defender um lado, mesmo que esses lados sejam na verdade um só, o qual representa a nossa permanente alienação e escravidão que impede que de fato a granja deixe de se chamar Solar para se chamar Granja dos Bichos.

Por: Erick Morais
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