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sábado, 15 de abril de 2017

Ainda vivemos no mundo de Hitler

Mais de sete décadas após sua morte, parece impossível escapar do fantasma de Adolf Hitler

Na Inglaterra, uma antiga disputa a respeito dos supostos comentários de um ex-líder do Partido Trabalhista associando Hitler e o Sionismo foi reacendida semana passada. Durante uma guerra de palavras com líderes europeus mês passado, o presidente turco Recep Tyyip Erdogan disse que os políticos holandeses e alemães são nazistas dos tempos modernos. E, na terça-feira (11), Hitler apareceu proeminentemente na espantosa gafe do secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer.

É importante que o horror do Holocausto e dos massacres executados pela máquina de guerra de Hitler permaneça na consciência global. Hitler e os nazistas, por muitas razões óbvias, ainda fornecem o sombrio parâmetro para o pior que a política e a humanidade podem se tornar. Mas é melhor deixar de lado a tentação de invocá-lo para marcar algum ponto político.

De fato, a Casa Branca de Trump e muitos de seus entusiastas na extrema-direita europeia atual se ressentem profundamente das analogias com o fascismo que seus oponentes por vezes atiram contra eles. Confrontados com o legado tóxico do ultranacionalismo ocidental, eles insistem que seus movimentos populistas de direita representam algo de totalmente novo, uma virada histórica. Mas eles não podem afastar tão facilmente a sombra do passado.

O que nos traz novamente ao principal porta-voz do presidente Donald Trump. Na terça-feira – o primeiro dia do feriado judeu da Páscoa – Spicer cometeu um incrível erro não provocado quando lhe perguntaram sobre a resposta dos Estados Unidos ao suposto uso de armas químicas pelo presidente sírio, Bashar al-Assad.

Spicer buscou condenar ainda mais enfaticamente as ações de Assad sugerindo que nem mesmo Hitler tinha usado armas químicas durante a Segunda Guerra Mundial – ignorando, ao que pareceu no momento, que milhões de judeus e outros foram mortos com gás nos campos de concentração nazistas.

“Sabe, você tinha alguém tão desprezível quanto Hitler que não se rebaixou ao ponto de usar armas químicas”, disse Spicer. “Então, se você for a Rússia, precisa se perguntar: esse é um país e um regime ao lado do qual você quer se colocar?”

O ponto que Spicer tinha esperanças de fazer – sublinhando novos relatórios de inteligência dos Estados Unidos de que a Rússia buscou encobertar o uso recente de ataques com armas químicas por Assad – se perdeu em um desnorteado kit de imprensa. Spicer recebeu uma chance de arrumar essa bagunça, mas seu esclarecimento ergueu mais sobrancelhas.

A transcrição de meus colegas captura o quão desconcertante o momento foi para todos, inclusive Spicer.

Acho que quando se trata de gás sarin, não houve – ele não estava usando o gás em seu próprio povo da maneira como Assad está fazendo. Quero dizer, houve, claramente. Entendo seu ponto, obrigado. Obrigado, aprecio isso. Não houve no... Ele trouxe para dentro dos centros de Holocausto, entendo isso. O que estou dizendo é que o jeito que Assad o usou. Ele entrou nas cidades, o atirou em pessoas inocentes, no meio das cidades, foi trazido – assim como seu uso. E aprecio o esclarecimento aqui. Essa não foi a intenção.

SEAN SPICER
secretário de imprensa da Casa Branca
Essa, é claro, não é a primeira gafe de Spicer, mas há alguns trechos chocantes para se pinçar da salada de palavras acima. Primeiro há a problemática inferência de que judeus alemães e outros mortos por gás nas mãos de Hitler não eram “seu próprio povo”. Depois há a desajeitada rotulação dos campos de concentração como “centros de Holocausto” e a implicação de que aqueles mortos lá de alguma forma não eram igualmente “inocentes”. E, finalmente, há a questão que permanece: em que momento qualquer parte disso pareceu fazer sentido como uma metáfora apropriada?

A reação foi rápida, e o Twitter fez a festa.

Spicer então se saiu com três versões diferentes de um pedido de desculpas, jurando que “de maneira alguma estava tentando diminuir a natureza horrenda do Holocausto”. Mais tarde ele continuou sua turnê de desculpas na CNN, mas tropeçou nas palavras lá novamente, dizendo que não queria distrair as pessoas dos planos de Trump para o Oriente Médio e sua agenda de “desestabilizar a região”.

O Twitter do programa da CNN “The Situation Room” tuitou: “Você sabia que havia câmaras de gás onde os nazistas massacravam pessoas? ‘Sim, estou claramente ciente disso’, diz Spicer.”

Descuidados e mal orientados, não ideológicos

É claro que isso é tudo um tanto tolo. Mas bizarramente não é um incidente isolado da Casa Branca de Trump, que já fez uma bagunça com mensagens sobre o Holocausto e a prevalência do antissemitismo nos Estados Unidos e em outros países. O círculo mais próximo de Trump inclui figuras como o chefe de estratégia Stephen K. Bannon, que no passado foi acusado de difundir discurso antissemita, e Sebastian Gorka, que se recusa a renunciar à sua ligação com uma organização húngara antissemita e de filiação nazista.

Em defesa de Spicer, seus comentários foram descuidados e mal orientados, não ideológicos. Mas o mesmo não pode ser dito a respeito dos aparentados do presidente do outro lado do oceano.

Passado sombrio da França

Marine Le Pen, a candidata a presidente de extrema-direita que está determinada a ganhar uma corrida acirrada na França, causou controvérsia ao argumentar que seu país não precisa mais compartilhar a culpa do Holocausto, se referindo especificamente a um incidente em 1942 quando milhares de judeus foram reunidos e detidos em Paris e depois despachados para morrer.

“A França esteve enlameada nas mentes das pessoas por anos. De fato, nossas crianças são ensinadas a terem toda razão para odiá-la, a olharem apenas para os aspectos mais sombrios de sua história”, Le Pen disse em comentários que provocaram censura do ministro do Exterior de Israel. “Quero que eles se orgulhem de serem franceses novamente.”

Críticos dizem que seu partido, Frente Nacional, está crivado de negadores do Holocausto e simpatia neofascista pelo regime francês de Vichy, colaboracionista dos nazistas. Seu principal oponente, o centrista independente Emmanuel Macron, devolveu: “Madame LePen cometeu um grave erro político e histórico. Essa é a verdadeira face da extrema-direita francesa, contra a qual luto.” Le Pen também vê sua fortuna condenada pelo fantasma de Hitler. 

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