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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Área vulcânica da Etiópia dá pistas para a busca de vida extraterrestre

  • Turista fotografa depressão de Danakil, no norte da Etiópia, local de condições extremas de vida
No calor seco e opressivo um odor de enxofre e cloro toma conta do ar. A paisagem rochosa revela superfícies verde-limão e amarelas que se parecem com ovos mexidos gosmentos.
Piscinas de água ácida quase fervente borbulham entre estranhas formações de rochas e minerais: montinhos de sal branco em forma de colmeia, treliças amarelo-gema de crosta sulfúrica, detritos vermelho-arroxeados. Perto dali, rochas ricas em ferro têm o formato de cogumelos achatados. Sob o chão, um som oco ressoa e emite um chiado de líquido borbulhante. Cones e pequenas chaminés minerais balbuciam sussurros alienígenas.
Embora essa pareça uma cena extraterrestre, a paisagem pertence à Depressão de Danakil, na remota região de Afar, no nordeste da Etiópia, perto da divisa com a Eritreia.
Cerca de cem metros abaixo do nível do mar, a Depressão de Danakil é um dos lugares mais baixos do mundo. Trata-se também de um dos lugares mais quentes da Terra, com uma média de temperatura diária 34,4 graus Celsius e apenas 100 milímetros de chuva por ano.
Essa região vulcânica é conhecida como uma maravilha geológica. De fato, uma das poucas áreas minimamente estudadas da Depressão de Danakil envolve sua fantástica geologia, não sua biologia. Agora, os cientistas a pesquisam para entender as possibilidades de vida em outros planetas e luas, apesar da volatilidade política da região e os episódios esporádicos de violência entre a Etiópia e a Eritreia.
Ítalo Nogueira/Folhapress
Lago de ácido sulfúrico na depressão de Danakil, na Etiópia
Este mês, uma equipe de astrobiólogos da Europlanet, um consórcio de órgãos de pesquisa e empresas que realizam pesquisas planetárias, voltou ao local para estudar a geologia, a mineralogia e especialmente a biologia da depressão, como um análogo da superfície de Marte.
Felipe Gómez Gómez do Centro de Astrobiologia de Madri liderou a primeira expedição da equipe no ano passado para estudar os extremófilos de Danakil, micróbios que vivem em condições extremas. Os pesquisadores de Madri, da Universidade de Bolonha e da Escola Internacional de Pesquisa em Ciências Planetárias, ambas na Itália, acompanhados por cientistas da Universidade de Mekelle, na Etiópia, estão isolando e identificando as bactérias que resistem a esse ambiente hostil de calor, acidez e salinidade elevados.
objetivo é "tentar saber quais são os limites da vida e a possibilidade de subsistência dessas espécies em outros planetas, como Marte", afirmou Gómez, que é membro da equipe científica da Curiosity, a sonda de exploração da NASA que pousou em Marte há mais de quatro anos.
Ele também estudou outros extremófilos, tais como os micróbios que sobrevivem no Rio Tinto, ácido e rico em ferro, no sudoeste da Espanha. Para essa pesquisa, ele e os colegas expuseram um acidófilo a uma simulação das condições de Marte, descrita em um artigo de 2010 na revista científica Icarus.

Missões de Marte

As novas informações de Danakil poderiam ser aplicadas às missões de Marte. Estudar os micróbios de Danakil é "uma maneira de nos treinar para identificar diferentes formas de vida para a exploração astrobiológica", afirmou Gómez. Embora Marte atualmente tenha temperaturas baixíssimas, sua origem é vulcânica e pode ser similar aos primórdios da Terra.

Um dos objetivos é explorar formas de identificar sinais de vida em ambientes extremos. "O que é vida? Quais são seus limites? Os cientistas não concordam com uma definição. Se encontrarmos vida em Marte, seríamos capazes de reconhecê-la? Acredito que não", afirmou Gómez.
Nasa
O Curiosity tem revelado detalhes nunca vistos sobre a superfície de Marte
A Depressão de Danakil, uma fossa tectônica que se estende do vulcão de Dallol, na Etiópia, até as planícies salinas do Lago Assal, no Djibuti, se encontra na convergência de três placas tectônicas que se separam lentamente. À medida que a superfície se distancia e afina ao longo de milênios, a terra afunda ainda mais.
Há milhares de anos, o grade Deserto de Danakil fazia parte do Mar Vermelho. Entretanto, erupções vulcânicas formaram barreiras rochosas e criaram um mar continental que, com o passar do tempo, evaporou com o intenso calor. Vastas salinas e lagos de água salgada continuam a existir na região e ainda são explorados pelas tribos nômades de Afar, que transportam o sal de Danakil por meio de caravanas de camelos.
Dallol, que significa desintegração no idioma afar, é a área que abriga essas formações coloridas e extraterrenas. Aqui, o magma aquece a água do lençol freático, que sobe à superfície e dissolve o sal, a potassa e outros minerais quando emerge por meio de fontes termais. A salmoura evapora, deixando crostas coloridas por minerais, ferro e algas halófilas que vivem no sal, criando essa paisagem multicolorida.

Água a 90°C

Algumas piscinas de água chegam a 90 graus Celsius. A combinação de calor, acidez elevada e grande concentração de enxofre leva à formação de chaminés amarelas. Outras piscinas de água termal chegam a 40 graus Celsius e adquirem uma tonalidade turquesa, graças aos sais de cobre.
No ano passado, pesquisadores da Europlanet colheram amostras de água das chaminés de sal, das piscinas azuis e vermelhas, e das crostas marrons e amarelas. Embora halófilos – micróbios que sobrevivem em condições salinas – tenham sido identificados em Dallol, essa nova pesquisa é a primeira a se concentrar em micróbios que vivem em condições de acidez e calor extremos, além de alta salinidade, afirmou Gómez.
Os pesquisadores estão isolando bactérias e seu DNA e também realizam sequenciamento genético para identificar bactérias. Entre elas estão as quimiolitótrofas – micro-organismos que obtêm energia de compostos inorgânicos –, que são encontrados em águas termais e chaminés minerais. Esses microorganismos não precisam de luz do sol para obter energia e geralmente são encontrados em ambientes extremos como fontes hidrotermais no solo oceânico.

Primeiras bactérias da Terra

Esses organismos simples podem sobreviver como "uma minúscula bateria" e provavelmente estão entre as primeiras bactérias a surgir na Terra, afirmou Gómez, acrescentando que "é isso que os torna tão interessantes do ponto de vista astrobiológico".
Quimiolitótrofas podem usar compostos inorgânicos reduzidos – como sulfeto, enxofre elementar, hidrogênio e amônia – como fonte de energia, e são capazes de crescer sem compostos orgânicos e luz. Os cientistas creem que esse tipo de metabolismo ocorre apenas com procariotas, micróbios sem núcleo.
O enxofre é abundante em Dallol porque a área era coberta por oceanos no passado. Aqui, o vapor de enxofre sai de chaminés no chão. Nas obscuras profundezas marinhas, o enxofre pode ser a principal fonte de energia para determinados tipos de bactérias que vivem longe da luz solar. Em Dallol, as fontes de enxofre estão ao alcance da superfície da Terra.
Os cientistas ainda estão estudando as primeiras amostras de Danakil, mas "sabemos que há vida", afirmou Gómez.
A recente expedição vai se concentrar no relacionamento das bactérias com a atmosfera. Os pesquisadores vão estabelecer estações ambientais para registrar vento, temperatura, umidade, etc., "para estudar o ambiente por completo, como o que a Curiosity faz em Marte", afirmou Gómez.
Porém, nesse caso, os cientistas não precisarão sair da Terra.

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