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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Cientistas descobrem e estudam rio com ebulição misteriosa que era citado em antiga lenda amazônica

Durante séculos, uma lenda peruana conta sobre um rio na Amazônia que queima de forma tão intensa que pode matar. Segundo a lenda, conquistadores espanhóis teriam se arriscado na floresta em busca de ouro, mas quando – poucos – os homens retornaram, contaram histórias de uma água envenenada, cobras devoradoras de homens e um rio que borbulhava misteriosamente.

Segundo o geocientista peruano, Andrés Ruzo, o mito o fascinava desde a infância, mas ele nunca pensou que fosse verdade. Quando ele estava completando sua tese de doutorado sobre o potencial de energia geotérmica no Peru, ele começou a questionar se o rio poderia realmente ser real. Quando ele consultou os especialistas, todos foram unânimes ao afirmar que seria impossível, afinal, existem rios quentes, mas eles geralmente estão associados a vulcões – inexistentes na região.

Porém, quando Ruzo foi para casa durante as férias e perguntou à sua família de onde o mito tinha se originado, sua mãe lhe disse que o rio não apenas existe, como também ela e sua tia já haviam nadado nele, no passado. O relatou pareceu um pouco absurdo para ele. Porém, em 2011, Ruzo teve uma chance de procurar o local e explorar a floresta amazônica com sua tia. Foi então que ele viu o famoso e lendário rio com seus próprios olhos. “Quando eu vi o vapor quente, imediatamente peguei o termômetro. A temperatura média registrada no rio foi de 86 ºC. Não é um ponto de fervura, mas definitivamente está muito perto dele. Ou seja, a lenda era real”, disse Ruzo em uma palestra para o TED, feita em 2014.

A parte mais intrigante foi o tamanho do rio. Nascentes de água quente não são incomuns, e piscinas termais chegam a estas temperaturas em outras partes do mundo. Porém, nada chega perto desse rio: com até 25 metros de largura e seis metros de profundidade, sua água quente percorre incríveis 6,24km. O rio está a 700km do sistema vulcânico mais próximo, e a temperatura é simplesmente inexplicável. Ele é o único rio de seu tipo em qualquer lugar do mundo.

Descoberta
Ruzo, então, passou os últimos cinco anos estudando o rio, seu ecossistema circundante e sua água, na esperança de descobrir o que está acontecendo. Ele faz questão de afirmar que não foi o primeiro a descobrir o rio, e tal como sugerido pelo seu nome indígena – Shanay-timpishka, que significa “cozido com o calor do Sol” – ele também não foi o primeiro a se perguntar o que faz dele tão quente. Mas sua pesquisa – apoiada em parte por uma concessão de exploradores da National Geographic – revelou alguns de seus segredos.

O primeiro deles é que seu nome está errado, pois não é o Sol que aquece sua água, e sim nascentes de água quente com falhas. Imagine a Terra como um corpo humano, com linhas de falhas e rachaduras que funcionam através dela como artérias que são preenchidas com água quente. Quando elas vêm à superfície, acontecem manifestações geotérmicas, como o rio fervente.

A análise química revelou que a água do rio originalmente veio da chuva. Ruzo acredita que isso remeta a um local distante – como os Andes – e ao longo do caminho ela escoe por baixo da terra, onde é aquecida por energia geotérmica. No fim do trajeto, ela surge na Amazônia, exatamente no local do rio fervente. Isso significa que o rio é parte de um sistema hidrotérmico enorme, jamais visto em outro lugar do planeta.

O ecossistema do rio
Ruzo tem trabalhado com os biólogos Spencer Wells e Jonathan Eisen para sequenciar os genomas dos micróbios que vivem dentro e ao redor do rio. Eles descobriram novas espécies que são capazes de sobreviver ao calor e também descobriram que o rio pode ser mortal.

A água fica tão quente que, regularmente, os pesquisadores presenciaram animais caindo na água e fervendo lentamente até a morte. “A primeira coisa a ferver são os olhos. No fim, os animais não podem mais nadar, e a água enche a boca ou pulmões, mantando-os de dentro para fora”, explicou ele em sua palestra pelo TED. Sendo assim, as pessoas também não poderiam nadar no rio – como sua mãe alegou – mas quando ocorrem chuvas pesadas, o calor é diluído com água fria.

Resultados da pesquisa
Ruzo continuará estudando o rio e sua fonte, mas, seu foco principal agora é como proteger o rio e o terreno circundante. Embora suas descobertas estejam prontas para publicação, ele está evitando revelar todas, até que o governo peruano garanta que eles vão adotar medidas de conservação adequadas no local. “No meio do meu doutorado, eu percebi que este rio é uma maravilha natural. E ele poderá não ser mais, a menos que façamos algo a respeito”, disse Ruzo em entrevista ao Gizmodo.

Ele acaba de lançar um livro chamado “The Boiling River (algo como “O Rio em Ebulição”), relatando suas aventuras, e pretende divulgar todos os detalhes sobre seu sistema único, para que as pessoas possam assumir a causa da proteção ambiental do local circundante. “Eu não gosto do conceito de uma pessoa segurar esta responsabilidade. Eu acho que seria melhor a construção de uma comunidade em escala internacional. O planeta está ficando pequeno, e maravilhas naturais como esta são poucas e distantes entre si”, concluiu Ruzo.
Science Alert / Gizmodo ] [ Foto: Reprodução / Devlin Gandy ]
Jornal Ciência 

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